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“Pesquisa” sem assinatura: a divulgação que confunde Camaçari e vira arma política nas redes

Uma postagem publicada no Facebook por um site do município, espalhou, nos últimos dias, números que se apresentam como “pesquisa de opinião pública” em Camaçari, com 1.630 entrevistados, 95% de confiança e margem de erro de 1,5 ponto percentual, além de trazer cenários de intenção de voto para deputado federal e deputado estadual, em formato espontâneo e estimulado.

Do jeito que está sendo divulgado, faltam os elementos mínimos que permitem ao cidadão conferir se aquilo é pesquisa de verdade ou só uma peça de propaganda.

O problema não é a pessoa discordar dos números, é ninguém conseguir checar

O texto lista percentuais, ranking de problemas da cidade e avaliação da gestão, mas não informa o básico que qualquer levantamento sério publica para que a sociedade valide:

  • Qual instituto realizou (nome e CNPJ);
  • Quem é o estatístico responsável;
  • Quando foi feita a coleta (datas e horários);
  • Como foi entrevistado (presencial? telefone? online?);
  • Onde foi entrevistado (bairros, sede/orla, ponderações);
  • Quem contratou e quanto custou.

Sem isso, não existe transparência. E sem transparência, não existe confiança, por mais bonita que seja a frase “95% de confiança”.

O ponto mais sensível do post é que ele não fica  em “opinião pública”. Ele entra diretamente em intenção de voto para cargos eletivos. E, em ano eleitoral, a Justiça Eleitoral é clara: pesquisas relativas a eleições/candidatos, para divulgação pública, devem ser registradas previamente no sistema da Justiça Eleitoral (PesqEle), até 5 dias antes da divulgação.

Ou seja: se o conteúdo está sendo apresentado como pesquisa com intenção de voto e circula como notícia, o público tem o direito de exigir o número de registro e os dados técnicos.

E não é só teoria: a Justiça Eleitoral costuma alertar que a publicação sem registro pode resultar em multa alta, além da retirada do conteúdo do ar, justamente porque números “fabricados” ou sem lastro podem interferir no debate público.

Camaçari vive um ambiente político intenso, com memória eleitoral recente, grupos organizados e uma disputa de narrativas que migrou para o celular do povo: WhatsApp, Instagram e Facebook. Nesse cenário, uma “pesquisa” com cara de manchete e sem comprovação vira:

  • arma de convencimento (“fulano já ganhou”);
  • mecanismo de desmoralização (inflar derrotados ou “enterrar” nomes);
  • cortina de fumaça para tirar do centro os problemas reais (violência, saúde, saneamento, desemprego).

O que o leitor deve cobrar, objetivamente, de qualquer página

Se a postagem é séria, é fácil resolver. Basta publicar:

  1. Número de registro no PesqEle (TSE/TRE)
  2. Instituto/CNPJ e estatístico responsável
  3. Período e metodologia completa (como, onde e com quem foi feita)

Pesquisa é ferramenta pública importante quando feita com método e transparência. Mas quando aparece “do nada”, com percentuais e ranking de candidatos, sem assinatura e sem possibilidade de checagem, ela deixa de informar e passa a manipular.

Camaçari merece debate sério: menos número solto, mais compromisso com a verdade verificável

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