Por Cláudia Maria Martins
O amor é mesmo uma grande invenção de Deus. E ele se expressa de muitas formas e por toda a nossa vida. Chegam embrulhados para presente, indicando que, além da lembrança, houve a doação do tempo para imaginar o que mais agradaria aquela pessoa.
Às vezes, o amor vem na forma de palavras gentis, do ombro amigo ou dos braços que envolvem, como se para proteger de toda a dor que há no mundo. Até na morte, onde o terreno poderia parecer árido para florescer amor, eis que ele brota e toma a forma de presente derradeiro, singular, pessoal e intransferível. Assim foi com o falecimento de minha mãe.
Mas, calma, foi explicar: Acho que Deus, para provar que nos ama, nos dá a mãe que nos gera. É um presente incrível, difícil, sem manual de instruções e que, por vezes, dá defeito. Passamos a vida toda tentando lidar com essa pessoa que nos gerou e foi acolhimento e rompimento. Estávamos lá quentinhos no ventre e, de repente, ela nos expulsa para a vida.
E passamos a vida toda confundindo suas atitudes e ensinamentos, para que tenhamos autonomia, com novas expulsões. E vamos crescendo, horas agradecidos, horas empurrados… Eis que chega, então, como chegou para mim, a morte da mãe.
Antes desse dia, pensei que haveria um vazio profundo, uma sensação de orfandade, que ficaria sem chão. E, por isso, fui me preparando. Deus deu uma ajudinha, pois minha mãe se foi, após um longo convívio, com 99 anos. Durante minha vida, vivi momentos de alegria, conflito, algumas mágoas, inseguranças, raivas.
Enfim, passei por todos os sentimentos possíveis numa relação mãe e filha. Tornei-me mãe, compreendi algumas coisas, outras, não. Quando veio sua inevitável fragilidade, mas perto do fim da vida, pude cuidar dela e muitas das incompreensões deram lugar ao reconhecimento de que, sem ela, eu não existiria, e agradeci. Simples assim.
Minha mãe se foi e me deu o último presente, cortou a última fibra do cordão umbilical que ainda me tornava filha. Hoje, não tenho, mas seu colo, hoje, sou colo para os que vieram depois de mim.
Minha mãe, com sua partida, me tornou integralmente mulher, autônoma, capaz. Onde quer que ela esteja, certamente na presença de Deus, tenha certeza de que, com todas as dificuldades, fez um bom trabalho.























