Por A. Almeida – Jornalista, Economista e Servidor Público
Na última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central elevou mais uma vez a taxa Selic, posicionando o Brasil como o terceiro país com os juros reais mais altos do mundo. A nova taxa, agora em 14,75% ao ano, descontada a inflação, nos coloca atrás apenas da Turquia (com 10,47%) e da Rússia (com 9,17%), deixando o Brasil com uma taxa real de 8,65% ao ano.
Mas esse número, que parece técnico e distante, é na verdade brutalmente presente e doloroso para milhões de brasileiros. É ele que define o custo do crédito, o ritmo da economia e o quão longe ou perto estão os sonhos de quem vive de salário.
Enquanto aqui os juros reais estão entre os maiores do planeta, outras economias estão indo na direção oposta:
- Estados Unidos: taxa básica em 4,50% ao ano
- Zona do Euro: cerca de 2,40%
- Japão: juros simbólicos, na casa dos 0,50%
- (Brasil: quase 15%)
Esses países estão tentando reaquecer o consumo e evitar recessões. Já o Brasil continua pisando no freio. O resultado? Uma economia com menos fôlego, menos consumo, menos esperança.
Com a Selic nas alturas, tudo que envolve financiamento fica mais caro — da parcela do carro ao rotativo do cartão de crédito. Para quem está endividado, o efeito é devastador. Em vez de aliviar, a dívida vira uma bola de neve. É como tentar sair de um buraco cavando mais fundo.
Para as empresas, especialmente os pequenos negócios, conseguir capital de giro virou um desafio quase intransponível. Linhas de crédito com juros acima de 30% ao ano travam qualquer ideia de crescimento.
Segundo dados recentes, mais de 70% das famílias brasileiras estão endividadas. A maioria não consegue sequer comprar o básico, quem dirá aplicar com consistência. A renda mal cobre o supermercado. Então, essa “bonança dos rendimentos” serve para poucos.
Quem toca um pequeno negócio sabe: sem crédito, o sonho não anda. O MEI que precisa comprar estoque, o dono do salão que quer reformar, a costureira que pensa em contratar uma ajudante — todos eles encontram nos juros um muro invisível, mas concreto.
É como nadar contra a maré. E não há fôlego que aguente. Enquanto isso, o mercado esfria, o consumo cai e o desemprego espreita na esquina.
A inflação, oficialmente, está mais mascarada. Mas vá ao mercado. Veja o preço do arroz, da carne, do leite. A sensação de estar afundando, mesmo sem tempestade visível, é real. Gasolina continua cara. O aluguel disparou. E todo esse sufoco vem embalado num discurso político que não chega à geladeira de ninguém.
A meta oficial do Banco Central é proteger o país da inflação. É, sim, um objetivo legítimo. Mas muitos economistas começam a questionar: não estamos exagerando na dose do remédio?
Quando os juros ficam altos por muito tempo, o consumo trava, os investimentos recuam e o desemprego cresce. O equilíbrio ideal parece cada vez mais distante.
Evolução da taxa Selic no Brasil (2015–2024)
A linha do tempo da Selic mostra bem o tamanho do impacto:
- 2015-2016: Selic em alta (14,25%), para conter a inflação pós-crise
- 2017-2020: corte agressivo, até chegar ao histórico 2%
- 2021-2024: escalada abrupta para conter a inflação pós-pandemia, encerrando em 13,75%
- 2025- Quase 15%
Essa é a fotografia de um ciclo de aperto monetário que ainda está longe de terminar.
A pergunta entre economistas, empresários e trabalhadores. Como o Brasil vai encontrar o ponto de equilíbrio entre combater a inflação com uma das maiores taxas de juros do mundo?
























