Por Cláudia Maria Martins -Auditora Fiscal e Autora de livros infantis
Proliferam pela internet vídeos sobre o amor incondicional dos cães pelos seus donos. No último, que vi, três cães adultos de grande porte parecem demonstrar tristeza e tédio, ao passarem horas entediantes aguardando o retorno do seu dono, que é recebido com balançar de rabos e pulos de suposta alegria. A cena é mesmo linda. O que me preocupa, no entanto, é o texto associado ao vídeo, e que parece interpretá-lo, onde é dito: “existem lugares onde sua ausência será percebida, já em outros lugares, nem parece que você esteve lá”.
É muito lindo ver a alegria dos cães, mas fico pensando se essa seria a única interpretação possível para as cenas que vemos repetidas vezes de animais recepcionando alegremente os seus tutores. Gostar mais dos animais do que das pessoas revela, talvez, muito sobre nós. Realmente, os cães, em particular, ficam excitados quando seus donos chegam, eles associam isso, provavelmente, a sobrevivência e satisfação, na forma de comida. Eles estão condicionados a agirem assim para terem essa recompensa. Essa cena se repetirá uma infinidade de vezes durante a vida do animal, se mantidas as mesmas condições e estímulos, como se fosse a primeira vez, o primeiro encontro. Para o animal, há uma sequência de tempos presente, ele não questiona, nem reconhece a repetição, portanto, não se cansa dela.
Já nós, humanos, diferentemente dos outros animais, temos a consciência do tempo. Passado, presente e futuro fazem parte da condução de nossos passos. Aliás, talvez aí esteja o que nos diferencia. E quando alguém conhecido aparece em nossa porta, seja este do convívio diário ou eventual, diferentemente dos cães, isso nos faz recordar das experiências que vivemos com essa pessoa e que, muitas vezes, preferíamos não lembrar: um atraso em um compromisso anterior, o esquecimento de uma data importante, uma briga, uma cobrança ou qualquer outro acontecimento que nos aborreça, entristeça ou, simplesmente, nos tornem indiferentes ao outro.
Claro que também podemos recordar bons momentos, cheios de ternura e afeto e o encontro será de alegria e, como os cães, faremos questão de demonstrar com afagos e carinhos como é bom ter essa pessoa por perto e a falta que sua ausência nos causou.
Os cães parecem tudo aceitar ou não são capazes de lembrar e expressar possíveis insatisfações? O fato é que é conveniente ter como melhor amigo um ser que nunca vai te cobrar nada, porque, simplesmente, vive apenas no presente, como todo animal irracional. Ainda dizem que somos racionais, tenho minhas dúvidas. Não encontrar alegria entre os iguais pode ser um sinal de que não estamos nos vendo como realmente somos. Nossos semelhantes são como espelhos inconvenientes, porém necessários, para a construção de nossa personalidade.
E as Alexas? E os bebês Reborn? Por que ainda não apareceram no texto? Perguntariam os que tiveram paciência de chegar até aqui. Tal qual um animal de estimação, ambos são desprovidos de passado. Chegam na nossa vida como uma folha em branco, e, a cada dia, uma nova folha em branco estará lá para a construção de um novo presente. Sem cobranças, sem confrontos, sem desgaste. Preocupar-se com a fome inexistente de um bebê reborn nos distrai da desnutrição incômoda e triste das crianças em Gaza, no Haiti, na África ou no Brasil. Fazer perguntas sobre nosso comportamento a Alexa, evita o constrangimento construtivo de ouvir de um amigo ou companheiro como nossas atitudes podem estar sendo prejudiciais ao convívio.
Felizmente, o passado é a verdade inexorável que nos faz avaliar, no presente, nossos acertos e erros. Infelizmente, estamos perdendo a capacidade de encarar o passado, o que permitiria criar, no presente, as correções de rumo necessárias para a construção de um futuro melhor. Sem passado, não precisamos reconhecer as verdades de nossa existência.
O passado é a mola propulsora para o futuro, sem ele, ficaremos estagnados em um eterno, monótono e sempre igual presente.
























