(parte 1)
Por Cláudia Maria Martins
Era janeiro de 1993. Grávida de quatro meses, esperava ansiosa pela minha primeira e, até agora, única viagem a Lençóis. A chance de conhecer a Chapada Diamantina, com todos os seus contornos e relevos, me trazia enorme alegria. Na última hora, no entanto, os planos mudaram e meu companheiro não pode ir.
Em meio a tristeza e angústia que nos acompanha, quando algo inesperado acontece, talvez movida pela raiva de me ver só, resolvi manter a viagem, mesmo imaginando o tédio que, certamente, me acompanharia por aqueles seis longos dias.
Aos que nunca engravidaram, explico e justifico: as emoções de quem hospeda uma vida em formação são sempre sentidas ao extremo. A força geradora é enorme e tudo é vivido com cores muito fortes. Continuando.
A sensação de solidão começou a se dissipar logo ao pegar a estrada. Ver as paisagens passando, comtemplar o horizonte, sentir cheiros, enxergar as mudanças na vegetação. Enfim, avançar… Por vezes, como uma mosca insistente, um pensamento voltava: seis longos dias em Lençóis, sozinha, grávida…
Chegando na pequena e charmosa cidade, fui acolhida numa pousada simples e logo passei a ser reconhecida e nomeada pelo meu estado. E pelos curtíssimos seis dias, “a Grávida” foi acompanhada por muitas pessoas que se revezavam cuidando e zelando para que eu conhecesse a maior parte dos lugares.
Pela manhã, logo cedo, alguém batia em minha janela, chamando a Grávida para o café da manhã. A Grávida também recebeu o auxílio luxuoso de mãos fortes, que me conduziram na subida da Cachoeira da Fumaça e no Morro do Pai Inácio. Na Gruta Azul e na Pratinha, também estavam lá olhos atentos para que a Grávida não escorregasse.
Os seis dias passaram num piscar de olhos, me emocionei com cada flor, cada pássaro e cada gesto de carinho. O meu estado, certamente, contribuiu para estar tão cercada de gente. Mas foi a certeza de reconhecer minha própria, única e solitária caminhada que me aproximou desse destino. Voltei para casa cheia de amigos e repleta de mim.
Quando acaba o medo de SER, é possível ESTAR em qualquer lugar.






















