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No Dia Mundial da Água, 22 de março, Camaçari vê pouco avanço no abastecimento e atraso no esgotamento sanitário

Por Mestre e Eng. Rute Carvalhal

Camaçari nasceu cercada por rios e viu a água mudar de lugar com o crescimento da cidade

Quem conhece a história de Camaçari de verdade sabe: a relação da cidade com a água sempre foi íntima, quase afetiva. Nos anos 60 e 70, muita gente tomava banho nos rios, lavava roupa na beira dos riachos e buscava água em minadouros naturais, como as águas das Pedrinhas e do Poço Fundo. A água chegava às casas no lombo de burros, em barris pequenos, num tempo em que tudo era perto da natureza.

Hoje, a cidade mudou, cresceu, se industrializou, e a água encanada passou a fazer parte da vida da maioria. Segundo os dados mais recentes (Embasa), 95,4% da população já conta com abastecimento de água. Ainda assim, quase 14 mil pessoas na sede e milhares na orla e distritos seguem sem acesso regular, o que por si só já mostra que o problema não acabou. Só que o ponto mais doloroso está no esgotamento sanitário: apenas 46,5% da população é atendida, deixando mais de 162 mil moradores sem coleta adequada de esgoto.

Falta de esgoto em Camaçari afeta saúde pública, meio ambiente e dignidade da população

E aí não tem como fingir que isso é detalhe. Quando o esgoto não é coletado e tratado do jeito certo, o prejuízo cai direto no colo da população. A água que deveria ser vida vira risco. Os rios sofrem, as lagoas sofrem, as praias sofrem, e as famílias também. Isso mexe com a saúde, com o bem-estar e com a dignidade de quem vive em bairros onde a infraestrutura ainda não chegou por completo. É triste perceber que uma cidade tão importante ainda convive com esse atraso.

Nos últimos meses, os anúncios ganharam força. Em julho de 2025, foi apresentado um projeto de cerca de R$ 500 milhões, em parceria entre Embasa e Cetrel, para ampliar a rede de esgotamento sanitário em Camaçari e Dias D’Ávila. A meta é ambiciosa: levar a cobertura a 95%. Em 2026, novos movimentos reforçaram esse caminho. Em janeiro, contratos do Novo PAC com financiamento do BNDES somaram R$ 662 milhões para obras de água e esgoto na Região Metropolitana de Salvador, incluindo Camaçari. Em março 2026, o governo federal informou que o município deve receber perto de R$ 1 bilhão em ações que envolvem saneamento, reurbanização e macrodrenagem.

Neste 22 de março, Dia Mundial da Água, o sentimento é misto. Há avanço, sim, e isso precisa ser reconhecido. Mas há um atraso evidente que não dá mais para empurrar. Camaçari precisa de mais água nas torneiras, assim como de saneamento funcionando de verdade, de rios preservados, de praias protegidas e de respeito com quem ainda vive sem o sanaeamento básico. A cidade cresceu muito. Agora, precisa crescer com cuidado, responsabilidade e humanidade.

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