Disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro apresenta propostas diferentes para a política industrial, os incentivos fiscais e os investimentos públicos; decisões a partir de 2027 poderão influenciar a expansão das fábricas e a geração de empregos na Bahia.
Camaçari (BA), 23 de outubro de 2026 — O resultado do segundo turno da eleição presidencial, marcado para domingo (25), poderá influenciar os investimentos, a geração de empregos e o futuro do Polo Industrial de Camaçari, um dos principais centros industriais do Nordeste. A disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) coloca em debate dois modelos de política econômica, com possíveis repercussões sobre a indústria automotiva, a petroquímica, o financiamento empresarial e a chegada de novas tecnologias à Bahia.
Os programas apresentados pelos candidatos ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram diferenças na atuação do Estado. Lula defende a continuidade de políticas industriais, investimentos em infraestrutura e ampliação do crédito para estimular a produção. Flávio Bolsonaro propõe reduzir despesas governamentais, rever tributos, simplificar normas e ampliar a participação da iniciativa privada nos investimentos.
Para Camaçari, as consequências dessa escolha estão acima das diferenças partidárias. A cidade reúne empresas químicas, petroquímicas, automotivas e de outros segmentos industriais que dependem de energia, infraestrutura logística, tecnologia, financiamento e condições competitivas para produzir no Brasil.
BYD e a nova indústria automotiva no debate
A instalação da montadora chinesa BYD na antiga área industrial da Ford representa uma nova etapa da economia de Camaçari. Inaugurada em outubro de 2025, a fábrica iniciou a produção de veículos eletrificados e vem ampliando seu quadro de trabalhadores.
Em outubro de 2026, o complexo alcançou aproximadamente 9 mil empregos diretos. Segundo informações divulgadas pela empresa nesta sexta-feira (23), cerca de 90% dos trabalhadores são baianos, a maioria residente em Camaçari. A montadora pretende ampliar a produção local com unidades de soldagem, pintura e estamparia e avançar na nacionalização dos veículos em 2027.
A expansão torna especialmente relevantes as decisões federais sobre importação de veículos, incentivos à inovação e desenvolvimento de fornecedores brasileiros.
Uma das políticas em vigor é o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), instituído pela Lei nº 14.902/2024. O programa oferece instrumentos de incentivo à pesquisa, à eficiência energética e à descarbonização do setor automotivo. Seu cronograma prevê R$ 4 bilhões em créditos financeiros para 2027 e R$ 4,1 bilhões para 2028.
A continuidade ou eventual revisão dessas políticas poderá interferir nas decisões de investimento das montadoras e de seus fornecedores.
Outro ponto é a política comercial. O governo federal estabeleceu um cronograma de elevação das tarifas de importação dos veículos eletrificados, incluindo regras específicas para automóveis montados e conjuntos desmontados. Essas medidas afetam a relação entre produtos importados e veículos fabricados no Brasil.
Para Camaçari, a questão econômica é saber se a fábrica continuará ampliando a produção nacional, incorporando fornecedores locais e criando empregos industriais de maior qualificação. A simples montagem de veículos pode gerar ocupações, mas a instalação de fabricantes de componentes, sistemas eletrônicos e equipamentos amplia as oportunidades de desenvolvimento tecnológico.
Petroquímica dependerá de política comercial
A indústria petroquímica, que deu origem à consolidação industrial de Camaçari na década de 1970, também poderá sentir os efeitos das escolhas econômicas do próximo governo.
O setor enfrenta desafios relacionados aos preços internacionais de produtos químicos, à concorrência de importados, ao custo das matérias-primas e à necessidade de modernização tecnológica.
Empresas instaladas no Polo dependem de condições adequadas para competir com produtos fabricados em países que contam com matérias-primas mais baratas ou políticas específicas de apoio industrial.
Uma política federal de defesa comercial, quando amparada pelas regras aplicáveis, pode oferecer proteção contra práticas desleais de concorrência. Por outro lado, tarifas elevadas sobre insumos importados também podem aumentar os custos de empresas que utilizam esses produtos na fabricação de outros bens.
Há ainda a transição energética. O crescimento da produção de combustíveis de menor intensidade de carbono, materiais recicláveis e produtos químicos com processos menos poluentes exigirá investimentos em modernização, pesquisa e equipamentos.
A partir de janeiro de 2027, a indústria química terá um novo instrumento de incentivo: o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), instituído pela Lei nº 15.294, de dezembro de 2025, com vigência prevista até 2031. A legislação busca estimular a modernização tecnológica, a eficiência energética e a competitividade do setor. Sua implementação será um dos pontos a observar no próximo mandato presidencial.
BNDES e investimentos: dois caminhos para o desenvolvimento industrial
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ocupa posição estratégica no financiamento de projetos industriais de longo prazo, especialmente aqueles que exigem investimentos elevados em instalações, máquinas e desenvolvimento tecnológico.
Em junho de 2026, o governo federal anunciou a disponibilização de R$ 140 bilhões para a política Nova Indústria Brasil até dezembro deste ano. Desse total, R$ 102,5 bilhões correspondem a recursos do BNDES e R$ 37,5 bilhões da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Os valores representam recursos previstos para a política nacional, e não investimentos destinados exclusivamente à Bahia.
A reeleição de Lula tende a favorecer a continuidade desse modelo, no qual o crédito público e os incentivos à inovação são utilizados para estimular setores considerados estratégicos.
Já uma vitória de Flávio Bolsonaro vai produzir mudanças na orientação econômica, com maior ênfase na redução de despesas públicas, nas concessões, na desregulamentação e na participação do capital privado. Isso não significa necessariamente o encerramento dos financiamentos industriais, mas pode resultar em alterações nas prioridades e condições de apoio às empresas.
Para o Polo de Camaçari, a disponibilidade de recursos e o custo do financiamento influenciam projetos de expansão, aquisição de máquinas, modernização de fábricas e desenvolvimento de novos produtos.
Qualificação profissional para os empregos
A chegada de novas empresas e tecnologias exige trabalhadores preparados para atividades industriais cada vez mais especializadas.
Em março de 2026, o governo da Bahia informou a certificação de aproximadamente 450 trabalhadores em Camaçari, por meio de iniciativas de qualificação que incluíram cursos voltados à indústria automotiva e ao Programa Manuel Quirino. As formações contemplaram áreas como eletrônica embarcada, soldagem, pintura, mecânica elétrica e operação de produção veicular.
A ampliação de parcerias entre a Prefeitura de Camaçari, o Governo da Bahia, o governo federal, o Senai e as instituições de ensino poderá contribuir para que os moradores ocupem os postos de trabalho gerados pelos investimentos.
As transformações tecnológicas ampliam a demanda por engenheiros, técnicos em automação, profissionais de tecnologia da informação, especialistas em manutenção industrial e trabalhadores capacitados para sistemas de produção digitalizados.
Entretanto, a expansão da produção não garante crescimento proporcional do emprego. A automação deve elevar a produtividade e modificar a quantidade e o perfil das vagas disponíveis. Por isso, as políticas de qualificação precisarão acompanhar as necessidades efetivas das empresas.
Reforma tributária e a instalação de novas empresas
Outro desafio para o próximo governo será a implementação da reforma tributária do consumo, que substitui gradualmente tributos atuais por um novo sistema baseado na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).
A reforma deverá alterar custos administrativos, condições de aproveitamento de créditos tributários e decisões de localização dos investimentos. O resultado para cada empresa dependerá das regras de transição, da estrutura de custos e do mercado em que atua.
Lula defende o avanço da implementação da reforma, enquanto Flávio Bolsonaro apresenta propostas para revisar aspectos do novo sistema e reduzir a tributação sobre produção e consumo.
Em Camaçari, a atração de novos empreendimentos também depende de fatores locais. A qualidade das rodovias que ligam o município aos portos de Salvador e Aratu, a disponibilidade de energia, o abastecimento de água industrial, a segurança jurídica e a agilidade dos procedimentos administrativos influenciam diretamente os custos empresariais.
A articulação entre o poder público e a iniciativa privada poderá ser determinante para atrair fabricantes de componentes automotivos, equipamentos eletrônicos e produtos associados à transição energética.
A definição do próximo presidente ocorrerá em um momento de transformação da economia de Camaçari. O município passa pela expansão da indústria automotiva, enquanto o setor petroquímico precisa responder à concorrência internacional, aos custos de produção e às exigências ambientais.
Independentemente do resultado eleitoral, a geração de empregos dependerá de investimentos efetivos, demanda pelos produtos fabricados, formação profissional e capacidade de incorporar fornecedores locais às cadeias produtivas.
O desafio da administração municipal será manter uma agenda de desenvolvimento industrial que dialogue com o Governo da Bahia e com a União, preservando a capacidade de atrair empresas mesmo diante de possíveis mudanças na política econômica nacional.























