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Trabalho por aplicativos cresce 36,8% expondo desafios de segurança e proteção social

País reúne quase 2 milhões de trabalhadores em plataformas digitais; pesquisadora da UFBA, Rute Carvalhal aponta riscos enfrentados por entregadores em Camaçari

O trabalho por meio de aplicativos continua avançando no Brasil e já faz parte da rotina de quase 2 milhões de pessoas. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que aproximadamente 1,96 milhão de brasileiros trabalharam por plataformas digitais de serviços em 2025.

Esse contingente representa 1,9% dos 102,4 milhões de trabalhadores ocupados no país. Do total, aproximadamente 1,8 milhão utilizavam os aplicativos como ocupação principal, enquanto 182 mil recorriam às plataformas como trabalho secundário ou fonte complementar de renda.

A alta de 36,8% refere-se especificamente aos trabalhadores que tinham os aplicativos como atividade principal. Esse grupo passou de cerca de 1,3 milhão, em 2022, para 1,8 milhão em 2025. Na comparação com 2024, o crescimento foi de 9,1%.

Entre as atividades pesquisadas, os entregadores apresentaram a maior expansão entre 2024 e 2025. O número passou de 274 mil para 325 mil trabalhadores, crescimento de 18,6% em apenas um ano.

 Atenção às condições de trabalho

Para a engenheira de Segurança do Trabalho e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Rute Carvalhal, o crescimento da categoria precisa ser acompanhado por medidas voltadas à saúde, à segurança e à proteção social dos profissionais.

“Os aplicativos se transformaram em uma importante alternativa de renda, mas o crescimento da atividade não foi acompanhado, na mesma velocidade, pela criação de mecanismos efetivos de proteção. São trabalhadores expostos diariamente ao trânsito, ao calor, à chuva, à violência urbana e à pressão por produtividade”, avalia Rute.

A pesquisadora desenvolveu, no Programa de Pós-Graduação em Saúde, Ambiente e Trabalho da UFBA, a dissertação intitulada “Acidentes de trabalho envolvendo entregadores subordinados a empresas de aplicativos digitais”.

O estudo analisou os fatores relacionados aos acidentes envolvendo entregadores no município de Camaçari, além das condições de trabalho, das medidas de prevenção e dos motivos que levaram esses profissionais a ingressar na atividade.

“Quando um entregador sofre um acidente, muitas vezes ele perde simultaneamente a capacidade de trabalhar e a sua fonte de renda. Sem cobertura previdenciária, assistência adequada ou apoio da plataforma, o problema deixa de atingir o trabalhador e passa a alcançar toda a família”, destaca Rute Carvalhal.

Os dados do IBGE mostram que os trabalhadores por aplicativos cumpriam uma jornada média de 44,7 horas semanais em 2025. São 5,4 horas a mais do que as 39,3 horas registradas entre os demais trabalhadores do setor privado.

Segundo Rute Carvalhal, a busca por melhores rendimentos pode estimular jornadas prolongadas e comportamentos que aumentam os riscos de acidentes.

“A remuneração variável e a necessidade de realizar mais entregas leva o trabalhador a permanecer por longos períodos nas ruas. A pressa, o cansaço, a pressão dos prazos e a exposição contínua ao trânsito formam uma combinação perigosa para a saúde e para a segurança”, observa a engenheira.

Informalidade alcança 72,1% da categoria

Outro dado preocupante é a baixa proteção social. Entre os trabalhadores por aplicativos, 72,1% estavam na informalidade. No restante do setor privado, esse percentual era de 42,7%.

Apenas 34% dos trabalhadores plataformizados contribuíam para a Previdência Social, enquanto a cobertura alcançava 63% entre os demais ocupados. Entre os motociclistas vinculados aos aplicativos, somente 19,4% possuíam cobertura previdenciária.

Para Rute, a baixa contribuição previdenciária amplia a vulnerabilidade de uma categoria que já está submetida a elevados riscos ocupacionais.

“O trabalhador precisa compreender que a ausência de proteção previdenciária pode deixá-lo completamente desamparado diante de um acidente ou adoecimento. Ao mesmo tempo, não é justo colocar toda essa responsabilidade sobre o entregador. As plataformas e o poder público precisam participar da construção de soluções”, afirma.

Autonomia limitada pelos aplicativos

Embora 86,8% dos trabalhadores por plataformas sejam classificados como profissionais por conta própria, a pesquisa do IBGE encontrou evidências de dependência em relação às empresas que controlam os aplicativos.

Entre os motoristas de transporte de passageiros, 80,2% declararam que o valor recebido por cada serviço era totalmente definido pela plataforma. Entre os entregadores, o percentual chegou a 78,3%.

“Existe uma autonomia aparente, porque o trabalhador pode decidir quando ligar o aplicativo. Entretanto, depois que entra na plataforma, aspectos importantes como remuneração, distribuição das entregas, prazo e avaliação são controlados por sistemas que nem sempre são transparentes”, analisa Rute.

Homens são maioria

O perfil da categoria permanece predominantemente masculino. Os homens representavam 84,4% dos trabalhadores que utilizavam aplicativos como ocupação principal em 2025, enquanto as mulheres correspondiam a 15,6%. A faixa etária entre 25 e 39 anos concentrava 47% desses profissionais.

Para Rute Carvalhal, a predominância masculina aparece entre os motociclistas pesquisados em Camaçari e precisa ser considerada na elaboração das políticas de prevenção.

“Estamos falando, em grande parte, de homens jovens e adultos que sustentam suas famílias e permanecem diariamente expostos a acidentes graves. Uma ocorrência pode provocar sequelas permanentes, perda de renda e impactos emocionais e financeiros em todo o núcleo familiar”, ressalta.

Rute Carvalhal defende políticas públicas em Camaçari

Com base nos estudos realizados no município, Rute defende a implantação de ações específicas para os entregadores, incluindo pontos de apoio com banheiros, água potável, área de descanso, proteção contra sol e chuva e espaços para alimentação e recarga de celulares.

A pesquisadora aponta a necessidade de programas permanentes de educação para o trânsito, fornecimento de equipamentos de proteção, acompanhamento da saúde, assistência em caso de acidente e participação das plataformas no financiamento das medidas preventivas.

“Camaçari precisa reconhecer que as ruas são o ambiente de trabalho desses profissionais. Criar pontos de apoio, promover capacitação e organizar uma rede de assistência não representa privilégio, mas uma política de saúde pública, segurança viária e valorização do trabalho”, defende.

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