Por Cláudia Maria Martins
Por mais que não queira surfar nessa onda, é impossível não falar sobre o tema “adultização das crianças”. Assunto que vem ocupando a mídia durante essa semana, em decorrência do vídeo de Felca. Porém, preciso alertá-los: não assisti ao vídeo e não sou especialista nesse assunto. Esse texto expressa a minha opinião, a partir das minhas próprias experiências como criança que fui, adulta que sou, filha, mãe, avó, tia, sobrinha, neta, enfim, mulher.
Fui provocada a escrever sobre o tema a partir de um programa semanal, conduzido por homens, que é transmitido toda segunda-feira, em um determinado canal fechado. Sabia que o assunto, de tão complexo, jamais seria esgotado, mas imaginei que teríamos uma discussão um pouco mais profunda e, confesso, me decepcionei logo no início.
Dois participantes até tentaram ampliar o debate, introduzindo, além da questão ética e moral, os aspectos históricos que demonstram ser um problema bastante antigo. Contudo, logo foram alertados que suas palavras poderiam ser mal interpretadas e, por isso, mereciam alguma intervenção, com o objetivo de traduzi-las de forma “correta”.
Em dado ponto, o apresentador, que antes elogiou o Felca por ter conseguido unir, no debate, pessoas de diferentes ideologias, pareceu colocar, numa mesma frase, pedófilos e “golpistas”. Foi nesse momento que desisti do programa, raso como água até a canela, e desliguei a TV. É tão ingênuo, para dizer o mínimo, tentar caracterizar o mal dentro de um padrão ideológico ou partidário, que chego a imaginar que deve haver algum outro motivo para a tentativa de estabelecer esse padrão como elemento de reconhecimento dos mal-feitores.
O debate é muito importante, mas focar na adultização das crianças, como elemento que leva a ação dos criminosos, é o mesmo que dizer que a mulher com roupas sensuais leva o estuprador a agir. O que precisa ser discutido é como estamos, de fato, protegendo as crianças na sua infância. Podemos ampliar o debate: Como estamos protegendo os nossos incapazes e vulneráveis? Como estamos orientando nossas crianças para lidar com os perigos da vida? Como estamos orientando nossas crianças a pedir ajuda? A quem pedir socorro? Qual o colo seguro onde podem revelar seus maiores medos, frustrações, decepções, arrependimentos, erros?
Para responder essa pergunta, gostaria de voltar ao programa de segunda. Antes do início, o apresentador conversa informalmente com os participantes, ainda nos bastidores, informa que o tema é sério e, em determinado ponto, acaricia o mamilo de um dos participantes, deitado em um sofá, num clima bastante descontraído. Descontraída, também, é a abertura do programa, onde esses homens adultos estão esparramados em um sofá, com atitudes pueris. A sensação que tenho, quando vejo certas tentativas masculinas de parecerem menos rígidos, menos “machões”, é parecerem mais infantis. Para ser menos machão, não é preciso voltar a 5ª série, deitar no colo uns dos outros ou arremessar para longe o sapato de alguém.
O grau de infantilização dos adultos está tirando, das crianças, o referencial de segurança. Os adultos, infantilizados, disputam com as crianças o celular, os jogos, os brinquedos e, agora, querem disputar até as chupetas. Senti falta, no programa, de um psicólogo, um psiquiatra, um filósofo, sociólogo, historiador ou antropólogo, que pudesse nos explicar de onde vem essa enorme vontade dos adultos de nunca sair da infância. Mesmo sem nenhuma base científica, penso que essa atitude tem como efeito a adultização da criança, que se vê sem ter a quem recorrer, precisando cuidar de si mesma desde muito cedo.
Em algumas situações, ao serem solicitadas pelas crianças a atender a alguma demanda, se desestabilizam, se tornam violentos, demonstrando total falta de controle. Uma criança assustada, fragilizada, amedrontada, precisa de alguém firme, calmo e que, pelo menos nessa hora, não aja de forma egocêntrica, tentando curar seus próprios traumas através dos filhos.
Vi um vídeo de uma criança que, diante de um curto circuito na tomada da TV, pede socorro aos adultos que estão na sala de jantar conversando e rindo. Os adultos não dão a menor atenção a criança, independente de seus apelos. Como resultado, a criança, sozinha, apaga o fogo. Quantos são os vídeos de crianças se afogando em piscinas ao lado dos pais entretidos nos seus respectivos celulares?
O que precisamos discutir é se somos adultos conscientes do nosso papel de educador/protetor. Qual relação de confiança e, principalmente, de segurança estamos construindo com nossas crianças?
Não posso encerrar essa reflexão sem retornar ao que um dos participantes do programa de segunda mencionou. A adultização das crianças, a pedofilia, a sensualização precoce, o duplo sentido, vem de longa data e posso aqui me lembrar da minha infância. Quando ía ao circo e via as acrobatas, trapezistas e malabaristas com maiôs sensuais e meias arrastão e os homens musculosos, sempre com pouca ou nenhuma roupa na parte de cima e calças apertadas. Aquela forma ousada de vestir, associada aos movimentos, obviamente, introduziu em minha infância aspectos da sexualidade.
A exposição recente, em que um homem nu se deixa tocar por adultos e crianças, com o objetivo de naturalizar a nudez, é outro exemplo que me ocorre. Desde quando a nudez deve ser naturalizada num espaço público não dedicado a isso? Como orientar essa criança a considerar inadequado, se algum homem nu deitar no chão, num quarto de sua casa e pedir para ela o tocar?
Por fim, mas longe de esgotar a discussão, dedico ao apresentador do programa uma música antiga e que, certamente, foi composta com a melhor das intenções. Eu tinha 12 anos quando foi lançada: “Se você quer pode sentar no meu colinho, neném. Eu sou santinho, juro pela minha avó. Que eu ía só cobrir você com mil beijinhos e dizer baixinho, eu tenho estado tão só. Mas se você desse um sorriso engraçadinho, neném, eu te puxava com jeitinho pra mim e começava a te fazer carinho, neném, devagarinho pra não ter mais fim.”
Poderia escrever linhas e linhas sobre muitas situações que podem representar perigo para nossas crianças, pois não há limite para o mal. No entanto, como não podemos esgotar esse assunto, nem traçar um perfil objetivo e claro dos agressores, o que nos possibilitaria identifica-los e rotula-los, só nos cabe crescer, amadurecer e oferecer as nossas crianças a nossa maturidade, assumindo a responsabilidade de sermos o porto seguro, lugar de acolhimento, escuta e ensinamento, onde as crianças possam se sentir à vontade para expor qualquer assunto.
Os agressores, que muitas vezes estão por perto e estão acima de qualquer suspeita, se alimentam de muitas coisas, mas o medo e a indiferença são, sem dúvida, suas armas mais poderosas. O medo e a indiferença levam ao silêncio. Que nossas crianças não tenham medo dos adultos que as criam e nem sejam silenciadas pela indiferença dos que não querem crescer.






















