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Álcool perde o “lugar de protagonista” mas não sai de cena

Por A. Almeida

De símbolo social automático a fator de risco debatido publicamente, bebida alcoólica começa a trilhar caminho parecido ao do cigarro e do açúcar. No Brasil, porém, dados mostram que o consumo episódico pesado cresceu no longo prazo  e o desafio passa a ser reduzir danos, sem fingir que o tema não existe.

O álcool está mudando de prateleira no imaginário coletivo. Assim como aconteceu com o cigarro, o açúcar e o sedentarismo, a bebida não desaparece, mas vai deixando de ser o “padrão” da socialização para virar uma escolha cada vez mais atravessada por informação, autocontrole e políticas públicas.

Essa virada tem nome no mundo da saúde: desnormalização. É quando uma prática comum começa a perder prestígio, ganha alertas e passa a ser vista sob o prisma do risco.

No Brasil, a mais recente pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (vigitel: 2006–2024) (Ministério da Saúde) mostra que o consumo episódico pesado de álcool, quatro ou mais doses (mulheres) ou cinco ou mais (homens) em uma mesma ocasião, nos últimos 30 dias, aumentou de 15,7% em 2006 para 20,4% em 2024.

O dado que chama atenção é o recorte por sexo: entre mulheres, a frequência dobrou, saindo de 7,8% (2006) para 15,7% (2024), enquanto entre homens o relatório aponta que não houve variação significativa no período total.

Ao mesmo tempo, o próprio Vigitel registra que, no período mais recente, houve estabilidade do indicador na população total e em ambos os sexos. Ou seja: o álcool pode estar perdendo “protagonismo cultural”, mas o padrão de risco segue relevante.

Se antes a conversa pública sobre álcool girava em torno de “dirigir e beber” e problemas hepáticos, agora o debate está cada vez mais associado a câncer e isso muda o tom.

Em fevereiro de 2025, a OMS/Europa defendeu rótulos com aviso de risco de câncer e destacou um “apagão” de consciência pública: em um estudo citado, apenas 15% sabiam da relação entre álcool e câncer de mama, e 39% reconheciam o vínculo com câncer de cólon.

Nos Estados Unidos, o tema ganhou tração quando o Surgeon General recomendou advertências sobre risco de câncer nos rótulos e pediu reavaliação das diretrizes de consumo.

E a disputa não ficou só no campo científico: em junho de 2025, a Reuters noticiou que os EUA poderiam abandonar limites numéricos diários (1–2 doses/dia) nas diretrizes alimentares, trocando por recomendações mais gerais, o  movimento que gerou críticas de especialistas por risco de “diluir” a mensagem de saúde.

A Irlanda se tornou um dos casos mais emblemáticos por aprovar um modelo de rotulagem com alertas de saúde (incluindo risco de câncer e gravidez), apresentado como “o mais abrangente do mundo” em comunicado oficial do governo.

Mas o cronograma virou alvo de pressão. Reportagem do Irish Times relatou discussões sobre adiamento em meio a tensões comerciais, e entidades do setor indicaram postergação para 2028.
O que era para ser um marco de “direito à informação” virou também um retrato de como a pauta do álcool está deixando o conforto do costume e entrando no ringue político.

A perda de protagonismo não significa abstinência em massa, significa pluralidade. Um dos sinais mais visíveis é a ascensão das bebidas sem álcool e low como opção socialmente aceita.

Segundo a IWSR, o segmento no-alcohol é projetado para crescer com força: CAGR de +7% em volume entre 2024 e 2028, puxado por cervejas 0.0 e ganhando tração também em RTDs (drinks já misturados), vinhos e destilados sem álcool. Fica mais fácil “participar do encontro” sem necessariamente beber.

O álcool está, sim, entrando na “esteira” do cigarro, açúcar e sedentarismo: menos glamour, mais debate público, mais regulação e mais alternativas. Mas, olhando para o Brasil: a cultura pode estar mudando, porém os indicadores de consumo pesado mostram que o tema exige política, prevenção e cuidado.

E talvez seja esse o retrato mais fiel da fase atual: o álcool não some, ele perde o monopólio do papel principal.

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