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Burnout deixa o escritório e toma as ruas da RMS

A síndrome de burnout já não é exclusividade de repartições públicas, hospitais ou escritórios climatizados. Na Região Metropolitana de Salvador (RMS), o esgotamento físico e emocional ganhou outro cenário: o asfalto quente entre Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari e Feira de Santana, onde motociclistas, ciclistas e motoristas de aplicativo trabalham mais de 10 horas por dia para sustentar uma engrenagem que promete entrega “rápida e barata” às custas da saúde de quem trabalha.

Levantamento do projeto “Melhor Prevenir”, do Ministério Público do Trabalho em parceria com pesquisadores da UFBA, mostrou que quase 60% dos motoristas e entregadores de aplicativo em Salvador trabalham mais de 50 horas semanais. Em um ano, quase metade relatou diagnóstico de dor lombar; cerca de um quinto recebeu diagnóstico de depressão, ansiedade ou estresse, além de LER/DORT e problemas circulatórios. Mais de 90% não têm acesso a água potável, banheiros, local para comer ou descansar durante o turno. O sistema é brutal: trabalhe sem parar, não reclame e não adoeça.

Outro estudo, da iniciativa EpiSAT Delivery, com coleta presencial em Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari e Feira de Santana, apontou que quatro em cada dez entregadores sofreram acidente de trabalho em apenas um ano. Os mais jovens e aqueles que trabalham sete dias na semana ou mais de dez horas por dia são os mais expostos. O trânsito deixa de ser apenas caminho e se transforma no próprio local de trabalho – um ambiente hostil, sem proteção, onde buracos, chuva, engarrafamento, assaltos e a pressão do aplicativo formam uma combinação explosiva.

A ciência vem desmentindo o discurso de que é “mimimi” ou “falta de preparo”. Uma dissertação recente da Universidade Federal do Pará, com 159 entregadores ciclistas, mostrou que mais horas na rua e mais acidentes aumentam diretamente a prevalência de burnout. Outros estudos brasileiros reforçam o padrão: jornadas alongadas, ausência de férias, pouco apoio, precarização extrema e baixa renda são terreno fértil para o esgotamento emocional e a perda de sentido do trabalho.

Na RMS, esse quadro convive com outra frente silenciosa de adoecimento: servidores públicos pressionados por metas e falta de pessoal, e trabalhadores do setor privado submetidos a metas inalcançáveis e ambientes competitivos. A diferença é que, enquanto em repartições ainda existem alguma estrutura e vínculos formais, motoristas e entregadores vivem uma lógica de completa descartabilidade, sem descanso garantido, sem estabilidade e sem rede de proteção social minimamente eficaz.

Em Camaçari, a engenheira e pesquisadora Rute Carvalhal Borges, do CEREST e mestra em Segurança e Saúde na UFBA, transforma a escuta de trabalhadores de aplicativo em dados e denúncia. Suas pesquisas buscam mapear acidentes, exposição a calor extremo, chuvas intensas e o impacto psicológico desse cotidiano. Ao levar esses resultados para congressos no Brasil e na Europa, Rute escancara para fora da Bahia aquilo que a RMS insiste em tratar como paisagem: cada moto na Via Parafuso, cada carro na orla de Arembepe e cada bicicleta nas ladeiras de Salvador carrega um corpo e uma mente no limite.

O que os estudos apontam que: burnout deixou de ser problema “individual” e virou indicador de um modelo de trabalho doente, que coloca lucro e velocidade acima da vida de quem produz riqueza. A resposta não pode ser apenas aconselhar “autocuidado” para quem mal tem onde ir ao banheiro. Exige políticas de mobilidade que tratem o trânsito como ambiente de trabalho, com faixas seguras, fiscalização e desenho urbano voltado para quem trabalha na rua; regulação firme das plataformas digitais, garantindo renda mínima, direito ao descanso, proteção previdenciária e corresponsabilidade por acidentes e adoecimento; e vigilância ativa da saúde do trabalhador, com protagonismo de serviços como o CEREST e da rede pública de saúde na RMS.

Ignorar o burnout entre servidores, empregados do setor privado e, sobretudo, entre entregadores e motoristas de aplicativo é normalizar uma economia baseada na exaustão. Na prática, a RMS funciona porque milhares de pessoas mantêm a cidade de pé, em duas rodas, atrás de um volante ou de um balcão, enquanto o sistema lhes oferece em troca apenas cansaço, risco e invisibilidade.

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