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VITÓRIA – Um filme para além do que está na tela


Por Cláudia Maria Martins -colunista

Vitória é um filme brilhantemente estrelado por Fernanda Montenegro e dirigido por Andrucha Waddington e Breno Silveira (trabalho póstumo). História brasileira, cotidiana e, infelizmente, muito comum, mas que me fez refletir sobre questões que vão além da tela: minha forma de ver a vida e, principalmente, o envelhecimento.

Embora seja baseado em fatos reais e essa história tenha sido noticiada, aos que ficaram curiosos e não gostam de spoiler, melhor ver o filme antes de ler a resenha.

O filme narra a trajetória de uma mulher idosa e sozinha, que mora em Copacabana, num apartamento que levou a vida toda para conseguir comprar, e se depara com a violência cotidiana, vista de sua janela.

O primeiro impacto, para mim, que gosto muito de cinema e, evidentemente, de histórias, foi ver um filme começar com o dia-a-dia de uma mulher de 80 anos. Do alto, ou do baixo, de preconceitos idadistas arraigados, me veio a pergunta: o que pode acontecer com alguém já perto do fim da vida? Como ocupar a tela por quase duas horas com alguém que, certamente, tem pouco tempo ou autonomia de vida?

A arte é mesmo maravilhosa! Aos que gostam pouco, eu recomendo, se aproximem. A arte é a vida com contornos tênues, que nos permite experimentar, quase sem perceber, nossos medos, angústias, crenças e sempre, sempre, saímos enriquecidos.

Voltando ao filme, uma cena simples, em que essa mulher está cuidadosamente preparando e tomando café, me fez sentir tristeza pela solidão que, para mim, representava aquela cena. Comecei a pensar no vazio daquela mulher, depois de uma vida inteira. Tudo isso, no entanto, fruto de uma forma de ver o mundo. Imediatamente imaginei que não sentiria essa tristeza se estivesse vendo um monge, um guru, uma viajante num veleiro, fazendo a mesma coisa. A percepção da solidão tem muito mais relação com o propósito da vida, do que com o fato de estar ou não só num ambiente. Lição aprendida, vamos para a próxima.

Ela decide reagir ao estado de violência, que não a permite viver em seu apartamento tão sonhado com a autonomia e liberdade que desejava. Resolveu buscar seus direitos, num ambiente pouco acolhedor em que, por vezes, nos sentimos desacreditados. Nesse momento, o que aflora em mim é a descrença. Essa corajosa mulher, talvez guiada por um senso de justiça e pela fé de quem já sobreviveu a inúmeras privações, reclamou, pediu, reivindicou. Provocada a provar o que dizia, buscou meios de registrar cada delito e violência durante horas e horas de gravação em vídeo. Produziu provas do que todos já sabiam, escancarou a corrupção, o aliciamento, o crime. E o improvável aconteceu… Em meio a tantos ouvidos surdos e olhos cegos, encontrou pessoas que bancaram investigar e publicar suas denúncias. A minha descrença frustrada me fez perceber que, por vezes, confundimos perseverança com teimosia e velhice com ingenuidade.

Diante da robustez e gravidade das provas, se tornou imprescindível colocá-la num Programa de Proteção a Testemunhas. A essa altura, já totalmente envolvida pela história e pela impactante protagonista, fui surpreendida por sua resistência em aderir ao Programa, a abrir mão de suas conquistas e de uma vida inteira, para cair no anonimato. O que para mim seria uma decisão natural, depois de uma vida tão repleta de vazios, invisibilidade e insegurança, era, para ela, algo impensável. Ela questionava ter que morrer para viver, mesmo não tendo cometido crime algum. O senso de justiça, novamente, gritava dentro dela, enquanto em mim, apenas havia o medo da morte iminente. Outra vez, vem essa idosa de 80 anos me ensinar sobre a vida. E eu espero ter aprendido que, enquanto a mente vive, há escolhas e o direito de escolher.

Por fim, mas longe de ser o fim, ela adere ao Programa aos 80 anos, troca de nome, de cidade, e vive mais 17 anos. Fico com a sensação de que, aos 80, a resistência, persistência, coragem e fé levou essa mulher a viver uma nova vida. O que será que ela fez durante o tempo em que passou na Bahia? Dezessete anos como Vitória, seu nome em tempos de paz. Hoje pode ser reconhecida pelo seu nome de origem que, na guerra do dia-a-dia, de mulher negra e pobre, representa muito mais do que um anseio, “sua graça” deveria ser um direito inalienável: Joana da Paz. Obrigada por ter existido.

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