Uma mãe de 14 filhos, dois adotivos e um coração que abraçava o bairro inteiro
Falar de Marinalva Argolo de Sá é falar de maternidade em dimensão gigante. Não só porque foi mãe de 14 filhos vivos e ainda criou mais dois filhos adotivos, mas porque tratava cada vizinho, cada criança do Parque Verde 2, como se fosse parte da própria família.
No dia a dia, a casa simples se transformava em ponto de encontro, lugar de acolhimento, espaço onde ninguém saía sem um prato de comida, um conselho ou uma palavra de fé. A maternidade de Marinalva não cabia na certidão de nascimento (registro civil); ela se espalhava pelas ruas, pelas histórias e pela memória afetiva de quem conviveu com ela em Camaçari.
Quando chegou a Camaçari, em 1991, o bairro Parque Verde 2 ainda era praticamente um território em construção, com muita poeira, ruas sem estrutura e um monte de desafios. Marinalva não enxergou só dificuldades; enxergou possibilidade de futuro para os filhos e para a comunidade que nascia ali, quase do zero.
Foi uma das primeiras moradoras do Parque Verde 2 e, em vez de reclamar da falta de tudo, colocou o pé na rua para reivindicar melhorias, cobrar benefícios, buscar serviços públicos que ajudou a transformar um conjunto de casas em uma verdadeira comunidade.
Dentro das reuniões de moradores, nas conversas em frente às casas ou nas visitas às lideranças políticas, Marinalva estava sempre ali, firme. Defendia saneamento, espaços para as crianças e, principalmente, um lugar de fé que unisse o povo.
Fundação da Comunidade Católica Nossa Senhora do Carmo no Parque Verde 2
Um dos momentos mais marcantes da trajetória de Marinalva em Camaçari foi a fundação da Comunidade Católica Nossa Senhora do Carmo, no Parque Verde 2. Ela não fez isso sozinha: reuniu vizinhos, envolveu famílias inteiras e transformou o sonho de ter um espaço de oração em um projeto concreto.
A comunidade nasceu da fé e da necessidade de ter um lugar onde o povo pudesse se encontrar, rezar, celebrar a vida, pedir forças e agradecer. A capela foi fruto de muito esforço, mutirão, doação e trabalho braçal de gente simples que acreditava em um futuro melhor.
Ao lado do irmão, Cícero Argolo, mestre de obras, Marinalva abraçou de vez o projeto de erguer a comunidade católica no Parque Verde 2. Cícero colocava a experiência técnica; ela somava fé, coragem e poder de articulação. Juntos, formaram uma dupla que arrastou gente, material e esperança para aquele terreno que ganhava forma de igreja.
Com o apoio dos padres Marcos e Luiz, conseguiram material para a construção e, principalmente, credibilidade junto à igreja e à comunidade. Cada saco de cimento, cada tijolo, cada telha carregada parecia carregar também um pedaço de história, um pedaço do amor de Marinalva pelo bairro.
Nada daquilo teria saído do papel sem um gesto generoso que marcou para sempre a história da comunidade: o terreno doado por José Benjamin Soares, esposo de Sandra Parente. Esse ato de doação foi , um “sim” definitivo para que a fé tivesse endereço certo no Parque Verde 2.
Ali, naquele pedaço de chão, tijolo após tijolo, ergueu-se a capela que se tornaria referência espiritual para centenas de pessoas. A cada missa, celebração, batizado, terço ou novena, a presença de Marinalva era percebida, às vezes ajudando na organização, às vezes cuidando de detalhes simples, mas sempre vibrando com o crescimento da Comunidade Católica Nossa Senhora do Carmo.
Inauguração da capela por volta de 1996 e a chegada do padre Jorge Bonfim
Por volta de 1996, a capela foi inaugurada, um marco religioso e social para o Parque Verde 2. Aquela pequena comunidade, que já rezava em espaços improvisados, agora tinha um templo para chamar de seu.
Com a chegada do padre Jorge Bonfim como novo pároco, a igreja ganhou ainda mais estrutura pastoral, organização e presença firme na vida do bairro. A partir daí, a religiosidade da comunidade se fortaleceu de forma impressionante, e o nome de Marinalva seguia ligado à história de tudo aquilo, como uma pedra viva na construção daquele espaço sagrado.
Em 2015, Marinalva Argolo veio a falecer, deixando um vazio imenso na família e em toda a comunidade. A dor da perda foi profunda, mas misturada com gratidão pela história construída. Não dá para falar do Parque Verde 2 sem lembrar da presença dela, da voz doce, da firmeza nas lutas e da fé que contagiava.
A saudade se manifesta nas lembranças, nas fotos antigas, nas histórias contadas na porta da igreja e, principalmente, na vida de cada filho, neto, vizinho e membro da comunidade que ainda hoje cita o nome de Marinalva como exemplo de mulher guerreira e mãe acolhedora.
Anos depois de sua partida, a luta para eternizar o nome de Marinalva nas ruas de Camaçari começou a ganhar forma política. A comunidade e a própria Câmara de Vereadores acolheram a ideia de homenageá-la oficialmente, dando o nome dela à rua onde morava.
No dia 6 de agosto de 2019, o vereador Jorge Curvelo apresentou a indicação ao Poder Executivo Municipal para que a rua passasse a se chamar Avenida Marinalva Argolo de Sá. A Casa Legislativa votou e aprovou a proposta, reconhecendo o peso da história daquela mulher para o Parque Verde 2 e para o município.
No entanto, o então prefeito, Elinaldo Araújo, não sancionou a mudança. O projeto, que carregava tanta emoção e simbolismo, ficou parado, deixando na comunidade uma sensação de frustração, como se o reconhecimento oficial tivesse sido adiado mais uma vez.
2025: Rosito Alves retoma a luta e encontra apoio no vereador João Dão
O tempo passou, mas a vontade de ver o nome de Marinalva eternizado nas placas da cidade não morreu. Em 2025, Rosito Alves decidiu retomar a luta e levou novamente o projeto adiante, desta vez buscando o apoio do vereador João Dão.
João Dão abraçou a missão com seriedade e respeito pela história da família argolo e do Parque Verde 2. Fez o que precisava ser feito: articulou, defendeu, acompanhou cada etapa do processo, garantindo aprovação em todas as instâncias necessárias dentro da Câmara. Era um ajuste de justiça histórica com uma mulher que deu tanto à comunidade.
Depois de passar pelas comissões, pelas discussões internas e pelas votações, o projeto finalmente seguiu para homologação do Poder Executivo. Dessa vez, a história tomou outro rumo. Não houve engavetamento, não houve esquecimento, não houve silêncio.
A trajetória de Marinalva, que começou discretamente em 1991, como uma das primeiras moradoras do Parque Verde 2, estava prestes a ser carimbada na história oficial da cidade. A Avenida Marinalva Argolo de Sá deixava de ser um desejo da família e da comunidade e se aproximava do papel, do diário oficial, das placas de rua.
No dia 4 de dezembro de 2025, o atual prefeito, Luiz Carlos Caetano, sancionou a lei que dá o nome de Avenida Marinalva Argolo de Sá à rua onde ela morou e construiu grande parte de sua história. Esse ato trouxe um sentimento de reparação e profundo alívio para quem, há anos, defendia essa homenagem.
Ver o nome de Marinalva transformado em avenida é ver a cidade admitir, oficialmente, que reconhece a importância do trabalho silencioso, comunitário e amoroso realizado por uma mulher do povo. A placa da avenida é memória, é símbolo, é reconhecimento público de uma vida inteira dedicada à família, à fé e à comunidade.
A família Argolo, em nome do filho Elison Argolo, agradece ao município de Camaçari pelo reconhecimento e pela decisão de prestigiar a matriarca Marinalva Argolo de Sá. Para filhos, netos e parentes, é a certeza de que a história dela não ficará restrita às conversas em casa ou às lembranças da igreja.
Cada vez que alguém ler o nome “Avenida Marinalva Argolo de Sá”, uma parte dessa história será recontada, nem que seja em uma pergunta simples: “Quem foi Marinalva?”. A resposta sempre virá carregada de respeito, carinho e emoção, lembrando da mulher que ajudou a construir o Parque Verde 2, fundou a Comunidade Católica Nossa Senhora do Carmo e ensinou, com a própria vida, o que significa viver para o outro.
Por A. Almeida- jornalista e Servidor Público























