42% das mulheres apostam ou já apostaram; mães jogam 1,6 vez mais que mulheres sem filhos
As dificuldades financeiras e a necessidade de complementar o orçamento familiar estão levando muitas mães brasileiras a recorrer às apostas online. É o que aponta o estudo “Mulheres & Bets”, que revela a dimensão dos impactos provocados pelas plataformas de jogos na vida das mulheres e de suas famílias.
Segundo o levantamento, 42% das mulheres entrevistadas apostam ou já apostaram. Outras 12%, embora nunca tenham jogado, afirmam sofrer as consequências do vício de companheiros ou parentes. Isso significa que mais da metade das brasileiras consultadas foi atingida direta ou indiretamente pelas apostas.
A pesquisa foi realizada pela Clarice, em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA. O trabalho reuniu uma enquete nacional com 2.008 entrevistados, realizada em julho de 2026, além de 20 grupos de discussão com 60 mulheres e homens.
Mães apostam mais
Um dos resultados mais preocupantes mostra que, entre as mulheres que jogam, aquelas que têm filhos apostam cerca de 1,6 vez mais que as mulheres sem filhos.
Para muitas mães, a aposta não é vista apenas como diversão. Ela aparece como uma tentativa de obter dinheiro para pagar contas, comprar material escolar, realizar uma festa de aniversário ou proporcionar algum momento de lazer aos filhos.
As bets passam a ocupar o espaço de uma suposta renda complementar. Entretanto, as apostas não representam investimento nem fonte segura de renda. Os jogos são estruturados para garantir vantagem financeira às empresas, enquanto os usuários ficam expostos a perdas sucessivas.
O maior risco começa quando a apostadora perde dinheiro e volta a jogar acreditando que poderá recuperar o valor. Esse comportamento, conhecido como “perseguir as perdas”, pode provocar o aumento das apostas, a contratação de empréstimos e o comprometimento do orçamento familiar.
O problema é ainda mais grave nos cassinos digitais, como caça-níqueis e jogos de resultado imediato. Como cada rodada dura poucos segundos, a pessoa pode realizar várias apostas em um curto período, aumentando o risco de perda de controle.
A facilidade de acesso pelo celular, o funcionamento durante 24 horas, os bônus e as constantes notificações também favorecem a repetição das apostas..
Uma questão econômica e de saúde pública
Os dados mostram que o avanço das bets entre as mães não pode ser tratado como uma escolha individual. O fenômeno está relacionado ao endividamento, à renda insuficiente, à sobrecarga feminina e à publicidade que apresenta os jogos como caminho para ganhos fáceis.
Quando uma mãe aposta para comprar material escolar ou pagar uma conta, fica evidente que as plataformas estão explorando a vulnerabilidade econômica e a esperança de melhorar de vida.
O Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como um problema de comportamento aditivo. Entre os sinais estão dificuldade para parar, ansiedade, irritação, alterações no sono, mentiras sobre os valores apostados e comprometimento das finanças.
O Sistema Único de Saúde oferece atendimento presencial e teleatendimento gratuito para apostadores e familiares. O Governo Federal também disponibiliza uma plataforma de autoexclusão, por meio da qual o cidadão pode bloquear seu CPF nas empresas de apostas autorizadas.
O resultado da pesquisa reforça a necessidade de ampliar a fiscalização, restringir propagandas que associem jogos a sucesso financeiro e investir em educação financeira e proteção social.























